sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017


“JÁ FALAREMOS DA CAPITULAÇÃO, DEPOIS DE MORTOS”






À memória dos “tercios”, a esplêndida unidade militar do outrora Império Espanhol Católico.




No contexto da guerra dos 80 anos entre a Espanha e a rebelde e protestante Holanda, em dezembro de 1585, nas proximidades de Empel, Holanda, “El Tercio Viejo de Zamora”, sob o comando do mestre de campo Dom Francisco de Bobadilla, combatia pela Espanha.

Bobadilla estava na ilha de Bommel, entre os rios Mosa e Waal, com 5.000 homens.

De repente, uma poderosa frota comandada por Holak (Felipe de Hohenlohe-Neuenstein), da Holanda, cercou o “tercio” espanhol impedindo-o de receber víveres e munições.

Nenhuma ajuda espanhola conseguia chegar até o “tercio” de Zamora.

Aproveitando-se disto, após alguns dias, o inimigo, Holak, propôs uma rendição a Bobadilla.

Bobadilla recusou e disse:

"Los infantes españoles prefieren la muerte a la deshonra. Ya hablaremos de capitulación después de muertos"

Holak não sabia que os "tercios" tinham uma característica: não sabiam recuar nem se render.

Ele, então, abriu os diques para inundar o inimigo, restando para os espanhóis apenas um pequeno terreno seco e ainda impôs um pesado fogo de artilharia.

Neste meio tempo, um soldado espanhol cavando uma trincheira, que ele disse que mais parecia uma cova para ser enterrado, achou uma imagem de Nossa Senhora Imaculada Conceição.

Incontinenti, os espanhóis Improvisaram um altar e entoaram a “Salve Regina” pedindo a intercessão de Nossa Senhora.

Bobadilla disse:

“Soldados! El hambre y el frio nos llevan a la derrota, pero la Virgen Inmaculada viene a salvarnos” e logo depois acrescentou:

"Este tesoro tan rico que descubrieron debajo de la tierra fue un divino nuncio del bien, que por intercesión de la Virgen María, esperaban en su bendito día”.

Como é de hábito, Nossa Senhora concede mais do que se pede.
E uma coisa impensável aconteceu:

O rio Mosa se congelou, algo impossível de acontecer daquela forma.

Estava aberto um caminho aberto para Bobadilla contra-atacar Holak.

Com a bravura típica dos “tercios”, Bobadilla avançou sobre os navios atolados na neve e venceu. Destruiu vários barcos e capturou dez deles.

Como se não bastasse, o “tercio” de Zamora ainda avançou contra um forte holandês, no dia seguinte.

Holak, que estava no forte recém-conquistado, conseguiu fugir berrando:

"Tal parece que Dios es español al obrar, para mí, tan grande milagro"."Cinco mil españoles que eran a la vez cinco mil infantes, y cinco mil caballos ligeros y cinco mil gastadores y cinco mil diablos".

Tal evento passou a ser conhecido como o “Milagre de Empel”. Nossa Senhora Imaculada Conceição tornou-se a padroeira dos “tercios” e posteriormente de toda a infantaria espanhola até o presente.

Em Empel, como se diz, esta história ainda é contada pelos católicos e há menção dela na Igreja local.



Marcelo Andrade, fevereiro de 2017

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

TRÊS CRUZES PARA TRÊS HERÓIS






Normalmente, os alemães, na Segunda Guerra, enterravam os corpos dos oponentes vencidos em valas comuns.

Porém, o comandante de uma certa companhia[1] alemã resolveu enterrar três inimigos vencidos em covas individualizadas, colocando três cruzes nas quais estava escrito que eles eram heróis. O capitão[2] nazista havia ficado impressionado com a bravura deles.

O trio, pertencente a um exército dos “aliados” (adversários dos nazistas formados por várias nações), havia se distanciado de seu pelotão[3], no caso, o de número “3”.

Em determinado momento, este pelotão “3” ficou sob pesado ataque da companhia alemã, sem conseguir escapar. O destino provável deste pelotão seria a morte ou a rendição.

Porém, o trio, percebendo este fato, deu uma pequena volta e atacou a companhia nazista pelo flanco.

A companhia alemã notando uma nova frente de luta, (até então não sabia que eram somente três soldados) interrompeu o ataque inicial ao pelotão para enfrentá-los.
O pelotão “3” por causa da manobra do trio conseguiu escapar.

O trio lutou até o último tiro até ser fulminado pelos nazistas. O capitão alemão se surpreendeu, então, porque eram somente “três homens” e aí mandou enterrá-los com distinção.

Os heróis foram destroçados, mas salvaram o seu pelotão e infligiram muitas baixas na companhia nazista.

E demonstraram bravura incomum.

Estes três soldados eram: Geraldo Baêta da Cruz, Arlindo Lúcio da Silva e Geraldo Rodrigues de Souza, do exército brasileiro. Todos eram do interior de Minas Gerais.

A luta se deu em Montese, no dia 14 de abril de 1945.

Na cruz estava escrito “Drei Brasilianische Helden” (três heróis brasileiros).

Esta bela história, infelizmente, é desconhecida do grande público brasileiro que prefere dar valor a cantores de música brega[4] e jogadores de futebol.

Esta história possui mais de uma versão, mas todas elas conduzem ao inegável heroísmo do trio.

Marcelo Andrade, julho de 2016.




[1] Unidade militar composta de 60 a 250 soldados, tradicionalmente comandada por um capitão. No caso devia ter por volta de 100 homens.
[2] Provavelmente era um capitão.
[3] Unidade militar composta de 20 a 50 soldados, normalmente liderada por um tenente.
[4] Curiosamente, o trio foi homenageado por uma banda de rock sueca!

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

MAIS DO QUE PROMETIA A FORÇA HUMANA[1]

No magno poema “Os Lusíadas”, Camões põe beleza nos feitos portugueses no além-mar.
Na primeira estrofe, o sexto verso: “Mais do que prometia a força humana” é uma realidade em verso, pois muitos navegadores pareciam ter uma força além do esperado para os homens comuns.
Portugueses nesta categoria: Vasco da Gama, Afonso de Albuquerque, Martim Afonso etc.
Neste curto texto, destacaremos três nomes menos conhecidos: Francisco D´Almeida(1450-1510), Aires de Saldanha(1542-1605), e Furtado de Mendonça (1558-1611).
O primeiro, Dom Francisco D´Almeida, lisboeta, lutou a serviço dos reis católicos na conquista de Granada, em 1492.
Foi designado como o primeiro Vice-Rei da índia, no comecinho do século XVI.
Nesta época, os “turcos” tentavam destituir Portugal dos mares e venceram uma batalha naval em Chaul, na qual morreu o filho de Francisco, Lourenço.
Uma outra batalha se anunciava, desta vez, maior ainda e decisiva pelo controle dos mares das índias orientais.
D. Francisco foi polido e avisou ao capitão de Diu, Maliqueaz, mameluco e inimigo, porém, homem honrado que ia atacar a cidade:
«Eu o visorei digo a ti honrado Meliqueaz, capitão de Diu, e te faço saber que vou com meus cavaleiros a essa tua cidade, lançar a gente que se aí acolheram, depois que em Chaul pelejaram com minha gente, e mataram um homem que se chamava meu filho; e venho com esperança em Deus do Céu tomar deles vingança e de quem os ajudar; e se a eles não achar não me fugirá essa tua cidade, que me tudo pagará, e tu, pela boa ajuda que foste fazer a Chaul; o que tudo te faço saber porque estejas bem apercebido para quando eu chegar, que vou de caminho, e fico nesta ilha de Bombaim, como te dirá este que te esta carta leva».
Dom Francisco reuniu 18 embarcações formadas por naus, caravelas e galés para enfrentar a armada inimiga composta de:
 200 velas!!!

A armada inimiga era apoiada pelo sultão do Cairo, sultão otomano, samorim de calecute, pelo sultão de Guzerate e vergonhosamente apoiados também por Veneza e por Ragusa.
Como Dom Francisco esperava ganhar com tão poucos barcos?
Se Portugal tivesse feito cálculo numérico para enfrentar os mares, não teria saído nem de Lisboa.
Combinando bravura e excepcional estratégia, numa luta que “lutava-se contra as ondas e inimigos e o mar convertido em sangue e ar em fogo”, como se escreveu depois, Dom Francisco venceu, perdendo apenas 30 homens e nenhum barco! Capturou a maior parte das embarcações inimigas, impondo mais de 1.500 baixas ao inimigo.[2]
Com a vitória, Portugal pôde por muito tempo garantir a rota das especiarias e o apostolado em todo o Oriente.
Depois das índias, Dom Francisco andou pela África onde caiu em batalha, ferido de morte por uma azagaia, a beira mar, na Aguada de Saldanha – norte do Cabo da Boa Esperança-, tendo o Oceano como testemunha.
Conhecido por nunca ter faltado com a palavra e cumprido todas as promessas, além de jamais ter fugido de pelejas, teve como merecido o escrito em sua Lápide:

Aqui jaz D. Francisco D´Almeida
Primeiro Vice-Rei da índia
Que nunca mentiu nem fugiu
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O segundo barão assinalado, de Santarém, Aires de Saldanha, filho de outro herói (Antonio de Saldanha que navegou com Afonso de Albuquerque) foi governador da Índia.
Defendeu Goa;
E Cochim;
E Rachol;
E Málaca;
E Aguada;
E Bengala;
E Molucas;
Etc.
Também funcionou no Algarve de Além-Mar, como capitão de Tânger, onde pelejou contra os inimigos.
 Ele venceu mouros em terra e mar, pôs para correr outros inimigos de Portugal e espantou os holandeses.
Morreu em naufrágio ao voltar para Portugal na costa dos Açores, foi enterrado em Angra do Heroísmo – sugestivo nome.
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O terceiro, também lisboeta, Furtado de Mendonça, lançou-se no além-mar aos 18 anos, com valentia e guardando a honra e a moral, sem se deixar se seduzir pelas delícias do Oriente. E em poucos anos se tornou capitão.
Ele foi encarregado de limpar o Índico de piratas, o que fez com destacada bravura, em especial no cerco e conquista do forte pirata de Pudepatão.
Enviado a Málaca, ia enfrentar o maior desafio de sua vida em uma das mais impressionantes defesas de forte de que se tem noticia.
No curso da guerra Luso-holandesa, o flamengo Matelieff cercou a fortaleza com uma armada de 15.000 homens e os lusitanos eram 150 ! Proporção de 100 para 1.
Mendonça resistiu heroicamente durante 3 meses e meio sob incansável bombardeio e luta. O forte recebeu mais de 400 tiros de canhão.
 Os holandeses, que perderam mais de 250 homens, fugiram ao saber da aproximação de uma esquadra lusa de apoio.
Mendonça foi designado governador da Índia, mas logo depois teve de retornar a Portugal.
Ele morreu em naufrágio, após cruzar o cabo da Boa Esperança (que belo simbolismo), foi enterrado na Igreja das Graças ao lado de Afonso de Albuquerque. Foram 33 anos de serviço e embates nos mares.
O comum a estes dois últimos batalhadores do mar, Saldanha e Mendonça, foi que nunca tiveram de entregar armas aos inimigos, jamais conheceram a derrota.
E morreram no mar.
Apenas o Oceano teve a força e a grandeza suficientes para vencê-los.
Afinal, como diz Pessoa: “Ó mar salgado quanto do teu sal são lágrimas de Portugal!”

Marcelo Andrade, 4 de fevereiro de 2016, no dia da festa, em Portugal, do santo lisboeta São João de Brito.




[1] Estas e outras histórias estão relatadas no livro: “Homens, Espadas e Tomates”, de Rainer Daehnhardt.
[2]  As três bandeiras do Sultão do Cairo capturadas por Portugal nesta batalha estão no convento de Cristo, em Tomar.

sábado, 13 de junho de 2015

CARROS QUEBRADOS


Há algumas décadas, na época em que o cruzeiro era maço de curso forçado, nas Minas Gerais...
Vinha o carro de boi ringindo o cocão direcionado pelo carreiro Tião, na junta do cabeçalho, os bois garantido, numerado, sete de ouro e desconfiado. Na matula constava virado de feijão, torresmo, jiló e um pouco de “mata-bicho”.
Nesta viagem ninguém viu o candieiro, Tião estava sozinho. O carro transportava a carga de trabalho e o carreiro, a carga da vida.
Prosseguia cortando as vessadelas dos contrafortes pelas trilhas sinuosas de terra semienlameadas mal definidas à esquerda e à direita pelo mato verde. Não era dia nem frio nem quente. No céu figuravam nuvens. Nem o ontem nem o amanhã demonstravam algo especial. Nem o hoje.
A paisagem apontava morros aqui e acolá.
Além, do lamento (som do carro de boi), ouvia-se os sons produzidos pelas aves e pelo vento que balançava as árvores do mato.
Numa lonjura, ouviu-se um barulho distinto dos demais. Tião, depois de uma interjeição de espanto: “ichi”, aciona os bois de trava, “sete de ouro” e “desconfiado” fazendo com que o veículo frenasse.
Inicia procedimento investigativo. Apercebe-se que uma arreia não suportou o peso e rachou.
Ainda bem que não foi a cheda- pensou.
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No tempo de hoje, na grande cidade de São Paulo...
Vinha o carro G231 da composição do metrô, que prosseguia no trilho rigidamente definido e dentro dele, Gil.
Gil estava sozinho e ao mesmo tempo cercado de uma multidão que se espremia de pé. O metrô produzia o seu som característico de fricção de ferro contra ferro. Gil ouvia, ainda, músicas no mp3, e carregava salgadinhos que não parava de comer.
Não havia paisagem nem se podia saber se fazia sol ou chuva lá fora.
Gil, além de ser conduzido pelo metrô, era conduzido pela corrupção moral moderna, também moldada em trilhos bem definidos.
Desembarcou para mudar de linha. À espera de outra composição do metrô é anunciado que ela vai atrasar devido a um defeito no carro G125.
Xingamentos são ouvidos.
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Tião sabia que não era problema grave, mas ia atrasar o serviço. Nada demais. Prosseguiu com o conserto que lhe toma mais de meio dia. Almoça calmamente e conclui com o mata-bicho (cachaça).
Na roça há o momento de plantar e de colher, mas este tempo não se conta pelos segundos, mas pelos dias.
Tião não tem contrato de trabalho escrito, é tudo na palavra, não tem ponto, só usa o relógio do dia vendo o sol subir e descer, só sabe da energia elétrica quando vai para a cidade.
Pensa por serviço feito e não por tempo cumprido. Não conhece “feriado civil”, só as festas religiosas.
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Gil ficou revoltadíssimo, pois chegaria atrasado no trabalho, levaria bronca do patrão e até mesmo poderia ter seu dia descontado.
Têm contrato de trabalho por escrito, ponto, prazos, hora marcada etc.
Se Dante fosse vivo hoje, escreveria também na porta do inferno: “abandonai toda a esperança vós que perdeis a hora.”
Almoça num “fast food” correndo.
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Tião, no fim do dia, chega em uma das várias casas da colônia – a sua- , simples, mas honesta, vê as galinhas, o pôr do sol e quatro dos seus oito filhos brincando de bola.
Olhava sempre para o céu para ver se chovia e para rezar para São José.
Não sabe ler, mas não há confusão em sua mente e sua vida é de trabalho, é de ver os filhos crescer, é de rezar, é de ir a missa no domingo é de temer a Deus e de esperar os novíssimos.
Vai dormir cedo para acordar cedo amanhã.
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Gil chega, no fim do dia, no seu apartamento apertado, raivoso e ansioso pelo jogo de futebol que tem hora para começar, não pode perder o início. Tem só um filho que vai assistir com ele.
Se não olhava para o céu para ver se ia chover, muito menos para rezar.
É letrado, mas é imerso em muitas informações, de forma que em sua mente reina a desordem, pois segue sempre a última moda e a última paixão.
Não tem ideia do que sejam os novíssimos.
Vai dormir cedo para acordar cedo amanhã.



Marcelo Andrade, 5 de outubro de 2014.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

AS ORIGENS INCERTAS DO TOURO BRAVO


         Se as origens da festa são um tanto obscuras, se seus antecedentes neste rincão meridional da Europa se nos escapam, pouco podemos aportar sobre a procedência do protagonista absoluto en el ruedo: el toro. De outros tempos distantes, nos chega a história das origens do chifrudo. Desde que as corridas começaram a formalizar-se, a polêmica não terminou. As teorias são diversas e cada uma delas tem alguma razão para explicar a existência de um bóvido semisalvaje – se constituiriam em manadas abertas em tempos pretéritos – que se converte em um animal único e irrepetível por sua forma de vida e seleção, completamente diferente de outros animais domésticos desde aproximadamente o quinto milênio antes de nossa era.

         Não está claro e ademais cai em fortes contradições a equiparação do touro bravo com o uro – raça bovina européia que se extinguiu. A discussão não terminou. No mundo clássico se conservam pequenos fragmentos de informações referentes ao uro, destacando a citação de Júlio César na famosaGuerra da Gália , que tratando sobre as feras que habitam os bosques da Germânia, relatava: “A terceira destas espécieas é a dos chamados uros. Estes por seu tamanho são menores que os elefantes e com forma, cor e aspecto de touro. É muito grande sua força e velocidade e, assim que avistam um homem ou um animal, lançam-se com violência. Matam-no, uma vez capturados, em armadilhas habilmente dispersas. A este trabalho se dedicam os jovens e neste tipo de caça se exercitam e, expondo em público os chifres como testemunho de sua captura, recebem grandes elogios. Os uros, por outro lado, não podem ser domesticados nem amansados, nem sequer quando são capturados por cachorros. A amplitude, a forma e o aspecto de seus chifres diferem muito dos chifres dos touros. Esses chifres são muito cobiçados, pois guarnecem as bordas das pratas e são servidos como taças nos mais suntuosos banquetes.”

         A pressão humana sobre o uro selvagem foi aumentando com o tempo, pois se caçava principalmente por sua carne, mas sua diminuição se deveu em sua maior parte ao desmatamento dos bosques em que viviam para destiná-los à agricultura, e a destinação para os pastos com os novos touros e vacas domésticas. Vários censos reais refletem a lenta e inexorável diminuição dos uros. O primeiro censo, em 1564, contabilizou 38 animais no bosque de Jarktorow (Polônia), em 1566 apenas restavam 24 e em 1602 diminuiu para 5 animais, 4 machos que foram caçados nos 20 anos seguintes e uma fêmea que se indultou, morrendo por causas naturais em 1627.

         Pouco fornece ao conhecimento do animal um autor tão escrupuloso e preciso como César, o que faz pensar que ele não havia visto nenhum uro, limitando-se a referir notícias escutadas e que podem resumir-se em assinalar ao uro bravura, ligeireza e peculiar cornamenta. Devido às escassas fontes documentais – assim como gráficas -, tudo parece indicar que restou confinado ao bosque polaco que antes mencionamos a partir do século VI. E é aqui onde surgem as perguntas. O touro bravo atual descende direto do uro? Existiram espécies intermediárias que na atualidade já desapareceram e das que derivam o atual touro da lidia? Para alguns, os touros que se lidian em qualquer plaza são descendentes daqueles magníficos animais, para outros, a sucessão não está tão clara, pois defendem que o touro bravo não teria uma relação linear ainda que o uro forneça a maior carga genética. Mais ou menos nesta linha se encontra José Ortega y Gasset em seu livro La caza y los toros. O mistério, uma vez mais, envolve as origens do protagonista de um espetáculo único e pitoresco.

         Adiantamos a interrogação, antes que o façam: Por que não existem na Península Ibérica referências ao touro bravo/uro quando não existia a lidiaconvencional como a que conhecemos hoje? Como eram as características zootécnicas da Espanha visigoda, na árabe e mais tarde na medieval? É estranho que um animal que deveria abundar, apenas aparece em algum manual, feito o que tem produzido com animais exóticos como a encebra. A evolução do touro durante a Idade Média se sucede sem nenhuma ordem preestabelecida, quer dizer, não distinguimos diferentes castas no século XVIII, onde restam conformados os ramos fundacionais, que todavia hoje podem rastrear. Encontramos desta forma os seguintes: casta jijona-toros de la tierra, casta navarra, casta morucha, castellana, casta cabrera, casta vazqueña e casta vistahermosa. Desconhecemos nos albores da Idade Moderna se pastavam os touros em fazendas privadas ou o faziam em total liberdade, se eram criados em cercados de grande extensão em condições de semiliberdade ou se capturavam em determinadas épocas do ano com motivo de festas tanto profanas como religiosas. É aqui onde a literatura nos tem deixado alguns exemplos, como o Poema de Mio Cid ou as crônicas alfonsíes.

         No tempo dos Reis Católicos já se conhecem as primeiras tentativas de seleção e cruzamento de espécies, assim que os primeiros indícios de seleção do touro bravo apontam aos séculos XV e XVI na província de Valladolid, onde a proximidade da corte, ainda itinerante nesta época, fez que se criassem em amplos terrenos um rebanho que pode sentar as bases do touro da lidia atual. Desde o término de Boecillo, La Pedreja de Portillo y Aldeamayor de San Martín, partiam os touros para as festas locais, as eclesiásticas ou para as da incipiente corte hispânica unificada. O nome desta pretendida ganadería primogênita foi Raso de Portillo, e foi conhecida até o fim do século XIX. Existe a crença de que estes touros foram os primeiros nos festejos reais. Paralelamente começaram a se desenvolver ganaderías em outros lugares da Espanha. Prontamente Andaluzia se pôs à cabeça na criação dos touros, se bem também tiveram importância os que se criaram em zonas geográficas como o antigo reino de Navarra ou o vale de Jarama, entre Madrid, Guadalajara e Segóvia.

         Portanto, até o século XVIII não se estabeleceu uma seleção, e não se purificou o sangue. E isso se deveu à prática esportiva dos nobres e cavaleiros na Idade Média, e graças também a personagens muito concretos que mantiveram a seleção ao touro. Se estabeleceu assim um tronco fundamental de castas que perdura até hoje. Agora contamos com um animal autóctone e de uma morfologia e tipologia únicas. Talvez sejam as perguntas que planteam este animal o que converte em uma fonte inesgotável de mistérios históricos e também de grandeza poética.

Excerto do Livro Otros Tiempos, de Fernando Martínez 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

SANTIAGO, O CAVALEIRO DA PIEDADE




"Herru Sanctiagu
Grot Sanctiagu
E ultreya e suseya
Deus aia nos"

Santiago!
Este era o grito de guerra que os mouros ouviam antes de suas derrotas frente aos cristãos nas batalhas sem quartel da Reconquista.
Foi o grito de guerra mais difundido no tempo e no espaço em toda a história.
Desde que Beato de Liébana, valoroso defensor da fé, na montanhosa Astúrias, no final do séc. VIII, evocou o nome do apóstolo como patrono da Reconquista até o século XX, Santiago foi invocado para a defesa da fé nas guerras espanholas e portuguesas.
No começo do séc. IX, os restos mortais de Santiago foram achados num local chamado de Campos de Estrelas, futuro Compostela, na Galícia. Uma Igreja foi construída e logo se tornou objeto de peregrinação, o famoso “caminho”, rota que conheceu vários milagres ao longo de sua história.
Em Clavijo, meados do séc. IX, o apóstolo apareceu montado num corcel branco e ajudou os católicos a destroçar as hostes mouras. Passou a ser conhecido como “matamoros” e a ser representado como um cavaleiro, o cavaleiro da piedade.
Após este evento, todas as Espanhas passaram a ser vassalas do filho do trovão (bonaerges, como era também conhecido o apóstolo).
Na batalha de Navas de Tolosa, séc. XIII, que teve a proporção de mais 4 mouros para 1 cristão, seu nome foi invocado, como:  “Santiago y cierra, España”.
Na esplêndida batalha de Salado, séc. XIV, os mouros também foram derrotados e as lamentações do rei vencido Dom Juçaf foram transformadas em versos:
Santiago el de España.
los mis moros me mató,
desbarató mi compaña,
la mi seña quebrantó...

Santiago glorio
solos moros fizo morir;
Mahomat el Perezoso,
tardo, non quiso venir

Já nos tempos das grandes navegações portuguesas, nas vitórias do além-mar, os barões assinalados berraram com sucesso seu nome, até no meio do mar Vermelho e em Ormuz. Os mouros devem ter se perguntado: até aqui?
No interior da África, os congoleses convertidos e aliados dos lusos evocavam Santiago contra os inimigos. Certa vez, uma cruz apareceu no alto para sinalizar a vitória.
Na distante Índia e na longínqua Málaca, os lusitanos, melhor armados com a fé que com as espadas e liderados por Afonso de Albuquerque, gritavam: “por Santiago”.
No Japão, os japoneses católicos que resistiam à perseguição brutal, na luta também gritavam “Santiago”.
No planalto Etíope, o grito também ecoava.
Na conquista do Império Asteca, os espanhóis com cruz no peito, liderados por Cortés, gritavam seu nome.
No Peru com Pizarro, o grito de guerra não era outro senão “Santiago!”.
Nas batalhas na Argentina e no Chile também se ouvia o grito, às vezes se dizia Nuestra Señora, Santiago y a ellos!
No século XIX, numa Espanha alquebrada pelo vício do liberalismo, os carlistas, que formavam um bastião da cristandade feudal, berravam “Santiago”. Conta-se que até no triste século XX ouviu-se a voz, pela última vez, na Guerra Civil espanhola.
Porém, a relação de Santiago com as Espanhas começou antes da Reconquista. O apóstolo fora enviado para converter a então província romana da Hispânia.
Ele criou o bispado de Braga, então Bracara Augusta e depois foi para Zaragoza, então Caesaraugusta, e lá apareceu-lhe Nossa Senhora, que ainda vivia na Palestina, em cima de um Pilar.
Durante a Reconquista, criou-se a ordem militar de Santiago e seu símbolo pode ser interpretado como uma cruz espatária ou como uma espada crucífera. Belíssima harmonia e união deste par invencível, a Cruz e a espada, tão marcante em toda a história da Igreja.
https://lh4.googleusercontent.com/v37BBN-ZpXwf_PAmKJhuuKBAlMqzklTqIik3qSJP9hUdhVjjWjqrn03Jdp4fJw2aeYfbeovvSZM8N2i5iNyD6eGVkbgW9im8ZWlAbPpLQpB2nBLpooZiGYjweKkDBRU3o41BbsoKaEE
Seus membros eram conhecidos pelos belos e sugestivos nomes de espatários ou santiaguistas. Espatário também significava aquele que cuida das espadas do rei. Ora, o maior dos reis, Cristo, não mandou que quem não tivesse uma espada vendesse sua capa e comprasse uma?
Pois, os espatários, vassalos do apóstolo, usavam as espadas para defender Cristo crucificado.
Não a desembainhavam sem motivo, não a guardavam sem honra lavada em sangue.
Hoje é dia de Santiago, padroeiro da Espanha, da Reconquista e dos cavaleiros.
O Brasil é herdeiro destes tempos, ainda que isto não seja reconhecido hodiernamente.
Ecos de um tempo glorioso forjado no sangue derramado por causa da verdadeira fé.
Como tudo isto soa estranho para os ouvidos ecumênicos de hoje. Lutar contra os hereges? Existem hereges? Cruz e Espada? Há cruz a ser carregada e há espada a ser empunhada? Guerra piedosa? Existe guerra justa?
Não seria melhor o famoso “diálogo”?
Se houvesse o “diálogo” na época da Reconquista, não haveria nem Portugal nem Espanha nem o Brasil nem estaríamos aqui e/ou não seríamos católicos.
Graças a Deus que o diálogo é coisa recente...
Por Santiago!

Na festa de Santiago, o primeiro, entre os apóstolos, a derramar sangue por Cristo.

Marcelo Andrade

São Paulo, 20 de julho de 2014.


sexta-feira, 16 de maio de 2014

BOABDIL CHORAVA



Granada, Andaluzia, Espanha
Nos contrafortes da montanha
Da cordilheira de Sierra Nevada
Na fortaleza bela e murada

Boabdil chorava 

Pois, era o fim da última coroa islã
Na Península Ibérica cristã
Era o fim dos séculos de luta
Que se iniciou na batalha da gruta

Boabdil chorava 

Pois, era o último sultão, agora derrotado
Pelo rei Fernando e seu exército devotado
A religião dos mouros, de Alá e Maomé
Foi vencida pela detentora da verdadeira fé

Boabdil chorava

Pois, não veria mais a terra dos olivais
Dos pomares, dos vinhedos e dos laranjais
Não mais sentiria o perfume da terra que apreciava
Tampouco teria o crepúsculo que sempre contemplava

Boabdil chorava

Pois, partiria e não voltaria jamais
Para a nação que fora de seus pais
Somente de fato, nunca por direitos
A terra que tomaram por vários feitos

Boabdil chorava

Por La Alhambra e seu lindo jardim
De águas, canteiros, arbustos e jasmim
Da sala do embaixador, do pátio dos leões
Do Partal, do espelho, e de outras habitações

Boabdil chorava

E com toda sua corte e sua mãe, ele partia
"Não chores como mulher" –ela lhe dizia-
"O que, como homem, não defendeu"
Teria de aceitar o que a Providência lhe deu

Boabdil chorava

Porque por todos os séculos estará escrito
Que o islamismo, da Espanha, foi proscrito
E por isso, a Europa católica se alegrava
Enquanto,

Boabdil chorava